Planos, quais planos?

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Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã e eu tinha tantos planos para depois” – um pedaço da letra “Ouvi Dizer” escrita por Manel Cruz, para os Ornatos Violeta.

Ouvimos todos dizer que o plano é não poder fazer planos, que temos que ficar em casa, que tudo será adiado. Comecei por adiar a minha festa de anos, adiando aquele momento em que celebraria com os que mais amo mais um ano de vida, seria inevitavelmente cheio de beijos e abraços que eu tanto precisava. Esquece. Não houve nada disso. Foi duro, foi cheio de incertezas, foi um dia em que cheirava mais a medo do que a bolo de chocolate, foi um dia em que engoli a seco a saudade do que ainda estava a viver. Foi nesse dia, 12 de Março, que comecei a minha quarentena.

Os meus planos

Costumo sempre fazer planos de vida e sempre que faço anos ou mudo de calendário, vou adaptando, limando arestas. Marca-se mais uma viagem, decide-se que está na hora de fazer voluntariado, de fazer uma tatuagem, de fazer mestrado. Aponto num caderno, às vezes numa folha rasgada (tradição cá de casa, escrita no dia em que se desmonta a árvore de natal). Faço planos, faço sempre planos. Para estar e para ir. Para agora e para depois, da letra A, à letra B sabendo que, se tiver que ir à letra Z, vou sem desistir. Neste aniversário não consegui fazer planos. As pessoas desejavam-me um “dia feliz” e eu só ouvia ao fundo a TV a dizer que as escolas tinham de fechar, que o número de casos ia crescer exponencialmente. Dia feliz? Pouco. Não queria presentes, só queria que todos pudessem estar presentes.

Cerrei os dentes quando pensei que, aquele conjunto de planos que escrevi num papel rasgado, em Janeiro, dificilmente teria concretização. Dei por mim a tentar fazer novos planos. – Planos, quais planos? Não vou poder fazer nada!

Acreditem, sou daquelas pessoas que faz planos para os seguir, para conseguir aquilo que quer. E quando o plano sai furado eu perco não mais do que dois segundos a começar a idealizar um novo plano. Isto acontece porque sinto que tenho algum controlo na minha vida, como se de um jogo de Xadrez se tratasse – se eu fizer isto, aquilo acontece; mas se eu avançar por outro lado consigo um resultado diferente – antecipo tudo, até de mais e o pior é que já percebi que isso não me traz assim tanta felicidade, traz uma outra coisa: controlo disfarçado de segurança. E agora que não tenho nenhum controlo sob o que se está a passar, sinto mais insegurança. É óbvio. E não sou a única a sentir isto, certo?

Quais planos?

Não foi fácil encontrar um copo meio cheio neste bar de azares que vivemos. Ontem, enquanto cantava Queen e aspirava o chão, percebi que se eu não posso fazer nada agora, posso ao menos afinar tudo o que quero fazer depois. A verdade é que eu não deixei de ter planos, mudei de planos, mudei de planos tão depressa que quase nem me dei conta. Os planos agora são básicos e primitivos, quero voltar a abraçar os meus avós, quero abraçar o resto da família, quero abraçar os meus amigos. O plano é fazer uma p*ta festa quando isto acabar. O plano é ir à praia, o plano é ir a todas as praias do mundo. De repente, o plano passou a ser dar mais a mão. O plano é começar hoje, é fazer do presente um bem mais precioso. O plano é respirar-me melhor, ser-me melhor, fazer-me melhor. Acredito que é para isso que os desafios servem, para voltarmos a nascer, duplicando a nossa identidade, numa equação que nos permite nunca perder o que fomos e o que passámos, enquanto ganhamos tudo o que queremos ser e viver.

Escreve os teus planos numa folha rasgada. Ninguém sabe quando é que isto vai acabar, mas cada um de nós tem certezas do que quer fazer quando isto passar, essas certezas serão os teus melhores planos, não os deixes escapar.

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