#10 – Jus d’Orange

Estava sentada no Jus d’Orange às cinco da tarde de um sábado, estava a dedicar-me à escrita quando os ombros começaram a acusar cansaço. Espreguicei-me para aliviar o desconforto e deixei que a minha atenção se focasse no que se passava lá fora em vez de se focar na história que eu tinha que escrever.

Na esplanada, uma mulher de cabelos pretos e curtos bebia um café enquanto fumava o seu cigarro, não era uma típica parisiense mas tinha um mistério preso à cara, que lhe dava o charme necessário para que ela pudesse condizer com a cidade. Ainda não tinha terminado o primeiro cigarro quando outra mulher chegou e beijou-a. Questionei-me se algum dia seria capaz de namorar uma mulher, admirei-as não pela coragem de se assumirem mas pela coragem de se amarem. Talvez em Paris seja sempre mais fácil amar alguém. Reparei que elas não conversavam muito, cada uma lia um livro de bolso, aparentemente velho. Mas, no meio da minha observação, dei por mim a pensar que o amor não tem que ser uma constante conversa nem um constante silêncio, tem que ser um pacto de comunicação, em que nada fica por dizer e onde nada é dito em excesso. Enquanto concluía que estava a divagar na complicada ciência do amor, espreguicei-me uma vez mais e quando abri os olhos uma mão corajosa pousou uma chávena de café junto do meu MacBook.

– Já espreguiçaste duas vezes em dez minutos, acho que estás a precisar de mais um café – disse isto enquanto se sentava à minha frente sem que eu lhe tivesse dado autorização para isso. Não tive tempo para perceber se ele era um rapaz lindo e ousado ou se era apenas um rapaz lindo e estúpido.

– Obrigada, mas eu sou o tipo de mulher que quando quer um café, pede. – arrependi-me logo de seguida de ter usado tanta arrogância, havia algo no olhar dele que me fez derreter na cadeira. Guardei as alterações ao documento e fechei o computador. Dei espaço a uma conversa sem obstáculos, afinal de contas ele era lindo, ousado e destemido, porque não se levantou quando ouviu o meu agradecimento azedo ao café que ele me tinha oferecido.

– Estava sentado atrás de ti a tentar estudar mas há mais de quarenta minutos que não consigo concentrar-me em mais nada a não ser em ti. – Olhei para trás para tentar confirmar que o que ele dizia era verdade. Porque é que alguém haveria de se distrair com as minhas costas? Eu já estava completamente distraída pelo sorriso dele, já não queria ir embora e já nem me lembrava que tinha combinado um jantar lá em casa quando percebi que aquilo não ia ficar por ali. Já estava escuro na rua quando ele se levantou para ir buscar os seus livros e cadernos que ainda se encontravam na mesa de trás. Rasgou um canto de uma folha e nela escreveu uma morada, arrumou as coisas dele na mochila, levantou-se e antes de sair passou-me a mão pelo meu ombro direito.

Mas quem é que ainda dá moradas? Será que ele acha que vou a correr atrás dele e enfiar-me dentro das paredes do número 30 da Rue Yvonne le Tac? Caramba, o rapaz é mesmo ousado, lá porque tem uns olhos lindos isso não lhe dá o direito de me deixar apenas com uma morada, um nome seria mais gentil e eu podia ir pesquisar tudo o que queria no maravilhoso mundo da internet.

Arrumei as minhas coisas, indignada com o que se tinha passado, mas guardei a morada cuidadosamente entre o meu telemóvel e a capa depois de ter tirado uma fotografia ao papelinho, acautelando-me que não iria perder a única indicação que me ligava a ele. A Eloíse já me tinha mandado três mensagens, uma a saber se era preciso comprar alguma coisa para o jantar lá em casa, a segunda para saber onde eu andava e porque é que não lhe respondia, e a terceira: “CABRA! O que se passa, porque é que não respondes? Estás a fornicar com um desconhecido? Daqui a meia hora estamos à porta de tua casa, é bom que não desmarques o jantar.”

Liguei-lhe para lhe dizer que infelizmente não tinha tido nenhum orgasmo e que já estava a caminho de casa, pedi-lhe para levar pão e prometi-lhe que não a deixava à porta à espera, por isso, apressei o passo porque ainda estava longe e queria ter tudo pronto quando eles começassem a chegar.

Entrei em casa a correr, pousei tudo em cima da cama e corri para a cozinha, abri duas garrafas de vinho português – portuguesa que é portuguesa só bebe vinho português – e o cheiro aveludado e intenso invadiu a casa deixando no ar um travo amargo a promiscuidade. Ainda tinha as rolhas na mão quando a Eloíse rompeu pela porta a dentro. Quis saber porque é que não lhe respondi, mas calou-se enquanto se entretinha a fatiar o pão. O Adam já estava a servir-se de vinho quando a Clea, a Francine e o Remy chegaram, o último a sentar-se à mesa foi o Thierry porque esteve ocupado a conversar com um estrangeiro giro.
Vão ter que me desculpar mas não podia desperdiçar uma conversa com um homem daqueles – disse Thierry enquanto me abraçava e me dizia que o meu rabo continuava óptimo e que se fosse um gajo não lhe escapava. Enfim.

Jantámos e fomos beber para o terraço apertado, esgotámos os cigarros e cada um foi para sua casa dormir. Os que beberam menos deram com o buraco da fechadura, os que beberam mais certamente vaguearam pelo bairro antes de chegarem a casa. Eu bebi de mais mas foi-me fácil dar com a cama, acordei às três da tarde mas só passado uma hora é que me lembrei do rapaz do café. Estava no banho a passar lentamente as mãos pelo corpo quando a imagem dele me veio à cabeça. Na incerteza de que aquilo poderia ter sido apenas um sonho estranho e demasiado realista fui ver se tinha um bilhete rasgado preso ao telemóvel. Ali estava um pedaço de folha, um pedaço de memória, um pedaço de incerteza e um pedaço dele.

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