Aquele sobre a minha primeira vez

Liliana Marques em auto-retrato. Em lingerie, em cima da cama. Mulher no quarto.

Este é o primeiro post da “série” Vai, Garota. Por ser o primeiro, é sobre a minha primeira vez. Mas é, sobretudo, um texto sobre virgindade, sobre sexualidade e sobre os inícios. Iniciamos com conceitos e terminamos com a minha história. Deixo ainda a promessa de que haverá vídeo sobre isto em breve!

Virgindade

Antes de vos contar sobre a minha primeira vez, vou falar-vos sobre o conceito de virgindade. No Priberam, podemos ler que “virgindade é o estado de quem nunca teve relações sexuais” a verdade é que há (felizmente) muitas formas de ter relações sexuais e que o sexo não é só penetração vaginal. Portanto, será que deixamos de ser virgens quando nos tocamos pela primeira vez? Será que aquele sexo oral contou como primeira vez para alguém? Se já acham que isto está complexo, somem hímen à equação e continuem a ler.

Hímen

Esta parte só diz respeito à virgindade feminina. Sim, até na virgindade há desigualdade, é um desassossego que nos vem em forma de membrana. O hímen é uma membrana com que as pessoas do sexo feminino nascem (e as que fazem mudança de sexo podem vir a ter) encontra-se no início do colo do útero, serve de protecção contra infecções, tem um orifício por onde saem fluidos vaginais, nomeadamente o sangue da menstruação, no início é uma membrana mais firme e, com o tempo, perde essa firmeza, algo que acontece durante a adolescência, pelas suas características físicas, não é muito resistente, podendo variar de corpo para corpo. Na grande maioria das culturas e religiões, o hímen está associado à virgindade e à pureza da mulher. Em Portugal, na cultura cristã, noutra parte do mundo, noutro credo ou noutra sub-cultura, sangrar na primeira vez é uma honra para a mulher e para a família. Uma completa estupidez, já que furar as orelhas é algo que se pode fazer a bebés a partir dos 6 meses e o lóbulo é muito mais resistente que o hímen. Infelizmente no último trimestre de 2019 ainda há muitas pessoas que consideram que uma mulher sem hímen é impura, mesmo que esta nunca tenha tido penetração vaginal. Provavelmente essas pessoas votaram no Chega e têm um QI equivalente ao de uma beringela.

Rasguei o hímen, e agora?

Agora conto-vos a história de como é que rasguei o hímen, envolve bastante suor, artes marciais e umas cuecas cor-de-rosa. Corria o ano de 1999, mais coisa menos coisa, eu era federada em judo e perdia-me por uma boa luta no tapete, era focada, astuta e paciente, como um ninja. Num certo dia, que eu não sei qual, entre os meus sete ou oito anos, rasguei o hímen num tapete da federação, durante uma luta com um miúdo qualquer que acabava sempre por puxar-me o cabelo com aquelas mãos transpiradas que as crianças costumam ter. Uma nojeira que só acabou quando cheguei a casa, ainda equipada, e fui fazer xixi. Ao ver o desastre nas minhas cuecas, dei um grito e chamei a minha mãe. Primeiro achou que eu era mesmo precoce e que estava a menstruar muito cedo, depois percebemos que tinha sido só o meu hímen que se rompeu com um golpe de ninja, ou com uma queda mal dada. Não doeu, não mudou a minha vida. Não deixei de ser pura. Não passei a ser uma desvairada sexual. Nada mudou. No dia seguinte fui para a escola e foi só mais um dia, entre tantos outros dias em que escrevíamos o sumário no caderno mas não escrevíamos nada na memória, e ainda bem.

A minha primeira vez

Agora que já perceberam que rasguei o hímen no século passado, vamos então falar sobre a minha primeira vez. Esta não é uma história sobre como e quando perdi a minha virgindade, eu não perdi nada no dia em que fiz sexo pela primeira vez, ou no dia em que fiz coito pela primeira vez. Eu ganhei experiência sexual, passei de um estado ao outro, como o Super Mário que passa de nível, ou como um Digimon que “digivolui”.

Foi cerca de 10 anos depois de ter rasgado o hímen e não foi, de todo, a minha primeira experiência sexual, enfim, podemos deixar as outras aventuras para outros textos desta série. Foi durante o dia, num quarto pequeno, com o namorado da altura, as cuecas já eram pretas, não fui ninja mas fui segura e correu tudo bem, o que é sempre subjectivo(!) não foi o melhor sexo da minha vida e ainda bem! Não houve pétalas de rosa, nem velas, nem banheiras de espuma, não houve flutes com champanhe nem fogo de artifício, houve sexo, houve consentimento e houve confiança. Ah, depois houve jantar e um jogo de tabuleiro que eu não sei qual era, mas sei que perdi (foi a única coisa que perdi nesse dia!). As coisas que nos ficam na memória! A pessoa com quem fiz sexo pela primeira vez não ficou com a minha virgindade, não me desvirtuou e não passou a ser mais importante que qualquer outro namorado ou lover.

Desculpem a desilusão, o sexo é uma coisa boa, divertida, positiva, deve ser empoderador e deve vir sem pressões, sejam elas culturais, religiosas ou sociais. A primeira vez não vai ser a melhor, com ou sem hímen, façam quando sentirem que o devem fazer, como e com quem quiserem, é uma decisão vossa e só vossa. Por isso, escolham respeitar o vosso ritmo e o vosso desejo. Vão sem medos, vão com tudo e com protecção! Vai, Garota!

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