Lá vai Lisboa

Não há ano que passe sem que eu vá para os bairros na noite de Santo António. Normalmente vou para Alfama, ruas estreitinhas, cheiro a sardinhas e gente, muita gente. Alfama é um dos corações de Lisboa, é autêntica e genuína, mas está, como toda a Lisboa, a perder o sangue das veias.

Gentrificação

Já muito se disse sobre o problema da gentrificação de Lisboa, já se falou em perda de identidade, já se falou em como nenhum alfacinha consegue acompanhar a subida das rendas ou do preço das casas, já sabemos que Lisboa foi ocupada e que não há Martim Moniz que nos queira salvar deste cerco invertido.

O problema maior está para quem quer sair de casa dos pais, tal como eu, e não consegue porque os bancos não emprestam, o patrão não paga, o estágio é ilegal e não é remunerado, as rendas estão tão altas que nem o rendimento anual daria para pagar um mês e uma caução, e entre trocar o nosso lindo quarto em casa dos papás por uma arrecadação com esquentador mas sem janelas ali, num prédio que ainda viu a Batalha de Sacavém mas que fica ainda mais longe do centro de Lisboa, pois claro que vamos continuar no quarto em casa dos pais. E o que é que isso significa?

Simples, tenho 26 anos, trabalho por conta própria (algo que os bancos e os senhorios odeiam porque acham logo que nunca vou ser capaz de pagar as contas) e não vejo formas de sair de casa e começar a fazer a minha vida. Vocês sabem, o básico, ter a minha alegre casinha, encontrar o príncipe, convidar o príncipe a deixar lá a sua escova de dentes, depois a deixar lá tudo que quiser, casar pelo civil só porque queremos ter uma festa com amigos e família, fazer um bebé, esperar 9 meses, ter o bebé cá fora, educar a criança e viver a vida comum que, devia ser acessível a todos e em qualquer parte de Portugal ou, para sermos mais específicos, em qualquer bairro de Lisboa. Eu nasci aqui, quero fazer a minha vida aqui, quero que o senhor do café continue a perguntar como é que está a minha avó, quero poder levar os meus filhos ao mesmo centro de saúde onde a minha médica ainda se lembra da infecção que tive há 5 anos, quero poder tomar café com a minha tia ou com a minha prima, quero encontrar aquela que foi a minha primeira professora. Quero isto, porque isto é meu e isto sou eu.

O que o futuro nos reserva?

Tenho 26 anos e duas escolhas, sair de Lisboa, ou esperar, até quando não sei, para poder construir a minha família e voltar a dar a Lisboa o que Lisboa já me deu a mim.

Vou ser mãe aos 45, se congelar uns quantos ovinhos, a economia vai dar de si, vamos entrar em colapso, não vamos ter renovação de gerações, não vamos ter alma, nem sardinhas, não vamos ser sequer alfacinhas, o senhor do café não me vai perguntar pela minha avó, vai antes perguntar: “Coffee for you?”. Nesse momento, quando perceberem que o problema do preço das casas em Lisboa não é um simples problema de especulação/procura, mas sim um problema que hipoteca a vida de uma ou mais gerações, vai ser tarde, tão tarde que já ninguém marcha pela avenida, já ninguém casa no Santo António, já nenhum português vive em Lisboa, já não vamos ter alma, e depois não vamos ter turismo, e depois ficamos muito pobres de um dia para o outro, para acordarmos para uma cidade deserta, vazia e sem graça. Porque o problema de hoje ainda vai ser a nossa maior desgraça.

Resta-me uma pergunta, para onde foi o boa de Lisboa?

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1 Comment

  1. Julho 9, 2018 / 11:34 am

    Olá, Liliana!
    Desobri o teu blog recentemente, depois de já te acompanhar pelo instagram e gostei muito do conteúdo que vi por aqui!
    Este post em particular diz-me muito, porque também sou alfacinha e naturalmente sinto o mesmo.

    A ironia com que concluis o post tem tanta piada como é uma triste realidade, e algo que creio que, apesar de tanto se falar desta problemática da habitação em Lisboa não é frequentemente mencionado – as consequências que já tem e terá a longo prazo para a nossa geração e aquilo de que estamos a abdicar ou a retardar.

    Oxalá surjam políticas que regularizem isto! Esperança! 😀

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