30 minutos com Jessie J

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Não posso omitir o facto de ser fã do trabalho de Jessie J, uma das primeiras coisas que lhe disse, ainda antes de começar a fazer perguntas, foi que já chorei num concerto dela. A Liliana de 18 anos guardava todas as músicas de “Who You Are” no mp3 e nunca pensou que quatro álbuns e nove anos depois este momento chegasse. Esta entrevista é o resultado de uma conversa entre uma jornalista que sabe algumas letras de cor e uma Jessie J que é meio artista, meio terapeuta e para quem a vida é sobre florescer. E se por um lado esta conversa começou doce, por outro acabou temperada a ketchup.

Jessie J apareceu pela primeira vez na cena musical londrina, de onde é originária, no fim de 2010, quando lançou o seu primeiro singleDo It Like a Dude”. Antes já tinha sido back vocals de Cyndi Lauper, já tinha estado numa banda feminina, já tinha sido expulsa do coro por cantar demasiado alto e já tinha estudado na BRIT School. Agora, quase uma década depois, tem quatro álbuns e incontáveis prémios BRIT e MTV. A voz de Jessie J é incontornável e, muito embora tenha começado por apostar na música Pop, o seu último álbum habita as prateleiras do Jazz e do R’n’B. A inegável potência da sua voz assinou ainda, no fim de 2018, um álbum de clássicos de natal intitulado “The Christmas Day

Mas foi sobre R.O.S.E que mais falámos, este último álbum mostra-se mais despido, mais feminino, mais real e que eleva as qualidades vocais da cantora e que revela uma mulher e artista mais autêntica.

Começaste a cantar ainda muito jovem, quando é que percebeste que cantar para a vida era tudo o que querias?

Há cerca de duas semanas! (risos) Eu não sei, quero dizer tu nunca sabes realmente. Tu vais andando no teu caminho, e um dia pensas “uhh ok, isto poderia ser algo maior, eu podia fazer disto a minha vida” Mas, definitivamente, que foi desde tenra idade que percebi que poderia ganhar dinheiro e pagar a renda e as conta através da música, fazendo o que eu mais amo o que foi uma realização muito excitante porque percebi desde cedo que podia fazer de um hobbie o meu trabalho e fazer disso a minha vida. Acho que tinha uns 17 ou 18 anos quando cheguei a essa conclusão.

Soul Deep, foi a tua primeira banda, do que é que tens mais saudades quando pensas nessa época da tua vida?

Poder partilhar esta experiência e tudo o que sei com outras mulheres, outras pessoas. Estar no palco e estar sozinho é algo que nos expõe muito, os olhos estão todos em ti, quando tens mais três mulheres ou qualquer outra pessoa a acompanhar-te passas a partilhar tudo aquilo com eles. Lembro-me de falar muito à-cerca disso com o Will-I-Am dos Black Eyed Peas, ele dizia-me que partilhou os primeiros momentos da vida dele com os melhores amigos, cresceu artisticamente com eles e eu sinto muito falta disso. Mas isso não era para acontecer, amei estar numa banda com mais vocalistas, aprendi muito sobre mim mesma, quem eu era, que roupas eu não queria usar e o que eu não queria cantar e naquela idade é realmente importante perceberes o que não queres para ti.

Estiveste ausente durante quase quatro anos e no ano passado voltaste com um novo álbum, R.O.S.E., uma obra de arte muito crua e diferente. Onde foste buscar tudo aquilo de que falas naquelas músicas?

Tu és mulher, tu sabes bem de onde aquilo veio! (risos) Vem da vida, da forma como as mulheres vivem a vida. Tenho muita sorte em poder transformar as minhas experiências de vida e as experiências que todos tempos, homens e mulheres, todos, em letras e melodias que as pessoas podem ouvir e, espero eu, relacionar-se. Este álbum não fui eu a cavar no fundo das minhas emoções, nem foi nada forçado, fui eu, literalmente a deixar-me ir e a decidir que ia cantar sobre a minha vida, tal como ela é, e é isso que se ouve no álbum. Há sempre dias mais felizes que outros, há sempre desgostos que nos custam mais que outros e estas são as músicas que eu nunca tinha pensado que precisava de escrever, até tê-las escrito.

Alguém muito especial te deu um conselho que guardas com muito carinho, queres partilhá-lo?

Sim, o meu avô era um baterista de Jazz profissional, viajou o mundo, e ele sabia o quão desgastante esta vida pode ser. E ele dizia que no meio de tudo isto, devemos ser sempre capazes de nos encontrar e de nos colocar ao centro, porque especialmente neste trabalho há muito mais pessoas que precisam de algo teu do que aquilo que tu precisas deles. Ele estava sempre a dizer-me que eu devia levar o meu tempo, ir ao meu ritmo e saber por aquilo que estava a passar, respeitar o que era o meu eu e nunca me basear noutra pessoa, ou na forma como outras pessoas lidam com a vida ou com os problemas. Manter o foco. Estes conselhos ficaram para sempre. E sou muito grata por ter tido a oportunidade de ainda o ter por perto quando comecei a ser a Jessie J, poder ouvir os seus conselhos já como mulher adulta foi muito importante. Ouve Easy On Me, a música fala sobre os conselhos do avô, e ainda inclui um clip de voz dele

Achas que os conselhos dele, de alguma forma, te ajudaram a escrever as tuas letras de uma forma tão a nu e tão real?

Sim! Eu acho que é verdade que tu te tornas as pessoas com quem te dás, por isso, se te rodeares de pessoas frias e fechadas, então é nisso que a tua música se vai tornar. É por isso que eu dou o meu melhor para me rodear de pessoas, amigos e familiares incluídos, que me levantam, que me elevam, e eu faço o mesmo para eles. São honestos comigo e desafiam-me a ver o mundo de uma forma aberta.

Dizes que és meia artista, meia terapeuta? Explica-te melhor.

Sim, isso foi algo que eu disse há muito tempo. O meu pai é terapeuta e eu sinto que deves ser sempre honesto com o que sabes e com aquilo que para ti é verdade, as tuas crenças.  A minha verdade é que eu sempre fui uma mysfit (termo que caracteriza alguém inadaptado), na escola eu era uma misfit, até enquanto crescia e amadurecia eu era uma misfit. Eu acho que sempre fui alguém que celebra as crianças e as pessoas que não se encaixam, que sentem que não se conseguem misturar na multidão. Eu digo sempre: tu deves sempre querer divertir-te, mas ser capaz de enfrentar os teus medos e emoções e poder mostrar isso. Por isso eu tento sempre apoiar e encorajar, não estou aqui para lugar ninguém, vais a um concerto meu e eu só dou música e amor. A minha música é algo que eu entrego às pessoas e ao mundo, não a quero só para mim. Eu sou como um navio, a minha música é como a água que fluí e que me leva até às pessoas, é algo maior que eu, maior que a minha banda, maior que Jessie J, é algo que pode, realmente, causar um impacto positivo. Algumas das maiores estrelas que conhecemos hoje, são pessoas que já não se encontram entre nós, mas a música deles permanece connosco, a música foi algo que se tornou maior do que eles. E poder criar algo assim é uma experiência incrível.

Mas ainda te sentes uma misfit?

Oh sim, claro! Sempre! Eu vou ser sempre uma misfit. Uma vez misfit, misfit para sempre. (Risos). Antes preocupava-me muito com isso, com o não conseguir encaixar-me, julgava-me por isso, porque sempre achei que o problema era eu. Eu sou complicada e emocional, sou uma artista… sou estranha na minha forma de ser mas aprendi a comemorar isso, a ser mais gentil comigo mesma e não sentir que agora que sou famosa e tenho sucesso devo ser algo que não sou. Eu quero manter-me fiel a mim mesma! Que se lixe ser misfit, que se lixe o encaixe! A vida é sobre desfrutares de ti mesma, por isso eu vou tentar fazer “a minha cena” e tentar sempre encontrar-me mais e mais à medida que o tempo passa e vou evoluindo. Ouve a música Who’s Laughing Now onde Jessie recorda a infância e como era ser misfit.

Tu és mesmo alguém que é apenas o seu eu mais autêntico. Mas o autêntico nem sempre é perfeito. Isso é algo que te incomoda?

Eu costumava importar-me muito mais, costumava chatear-me muito mais do que agora. Quando observas alguém e enquadras, normalmente, queres fazer zoom in nesse enquadramento, mas eu digo sempre às pessoas para fazerem zoom out e depois tirarem conclusões, é no zoom out que ficamos a saber mais e a perceber se a pessoa é autêntica. Claro que há pessoas que são más para mim, dizem coisas que realmente provocam dor e desconforto, mas essas pessoas são, sobretudo, más para elas mesmas. Óbvio, eu sou um ser humano e, de facto, há palavras que podem doer e eu fico cansada disso. Agora aprendi que tenho de me afastar de tudo o que me faz sentir assim. Ouve a música Nobody’s Perfect.

Consideras isso uma forma de empoderamento, acreditas que o teu lado mais autêntico e a forma como lidas com as críticas mas também com o teu eu, é inspirador para outras mulheres?

Oh sim! As mulheres têm de se levantar umas às outras. A coisa mais importante que uma mulher pode sentir quando acorda de manhã é genuína felicidade e a única pessoa que pode fazer uma mulher feliz é ela mesma. Ninguém te pode fazer feliz, podem tentar trazer-te alegria, fazer-te sentir amada, mas a felicidade vem sempre de dentro, és responsável pela tua própria felicidade. Eu estou muito feliz, sinto-me poderosa e independente, sou uma mulher forte. Ouve a música Queen, um hino ao empoderamento feminino.

Tu não fazes da tua condição cardíaca um segredo e, como tu própria dizes, esta é a tua maior batalha, o teu maior medo mas também a tua maior força. Achas que isto se reflecte na forma como vives a vida ou até mesmo como compões ou escreves a tua música?

Sim. A razão pela qual eu digo que é a minha maior batalha é porque isto é algo com que lido todos os dias, mesmo que eu não fale sobre o assunto, tenho que adaptar o meu estilo de vida para que isto encaixe. Por isso, sim, com certeza, é definitivamente uma coisa difícil. Mas quando digo que é esta é a minha maior força é porque sei que eu não seria quem sou hoje, nem estaria aqui e agora se eu não tivesse passado pelo que passei, se eu não tivesse aprendido a adaptar-me. E, como mulher, sei que é muito importante falar sobre o que sentimos. Eu não sofro muito, eu falo sobre a minha condição porque sinto que todos precisamos falar mais sobre o que nos vai cá dentro, mulheres e homens, os homens também precisam muito de falar sobre o que sentem. Acredito que as mulheres podem elevar os homens e vice-versa.

Eu tento sempre certificar-me de que falo sobre coisas com que ambos se podem relacionar e acho que a minha saúde ou esta minha condição é algo com que milhões de pessoas se podem relacionar. Eu tenho dias horríveis e ás vezes isto é algo que me afecta mais do que o que as pessoas podem imaginar, mas partilho isso e sou muito grata pela vida que tenho e pela minha saúde, sei que há pessoas que sofrem muito mais do que eu. Não tomo nada por garantido e tento passar esta mensagem.

Por falar em saúde, como é que cuidas de ti durante as tours? Acredito que não seja fácil.

Sim, é muito cansativo. Ao longo dos anos aprendi o que é melhor para mim, certifico-me de que eu tenho sempre à mão um spray anti-bacteriano, para que,onde quer que eu vá, possa pulverizar tudo o que possa ter sido tocado por outras pessoas, para não correr riscos de ficar doente. Acredita, eu sei que isto parece louco, mas ajuda. Tomo várias vitaminas, tento fazer exercício e meditação tanto quanto possível. Sempre que posso tomo um banho com sal dos Himalaias e magnésio e procuro descansar corpo e mente. Tento comer bem, não colocar nada no meu corpo que eu sei que não me vai ajudar a funcionar melhor. E eu também tento rodear-me de pessoas boas, as energias são algo muito importante para mim. E, claro, para te manteres saudável também tens de te divertir, procuro fazer isso sei que me faz bem ao corpo e à mente.

O que é que fazes antes de subir a palco, qual é o teu ritual?

Faço a minha maquilhagem, arranjam-me o cabelo, tiro sempre a minha roupa – não gosto de me arranjar vestida, ou visto um roupão ou enrolo uma toalha à minha volta. Lavo os dentes, ponho perfume, o que ate é engraçado porque ninguém me vai cheirar, para além da minha banda, acho eu. (risos). Gosto sempre de ir ter com a banda antes do concerto começar, para que possamos estar todos conectados, reunimos a malta que está nos bastidores e fazemos um círculo, aí podemos dizer uma oração, cantar os parabéns, ou levantar alguém que se tem sentido em baixo ou que está a ter um dia mais difícil, dizemos as palavras que reflectem o que sentimos nesse momento. Acaba por ser diferente todas as noites, por isso acho que não tenho um ritual consistente, até porque na vida e até no meu trabalho nada o é.

O teu último álbum R.O.S.E. é uma sigla para Realizações, Obsessões, Sexo e Empoderamento. O que é que cada uma destas palavras significa para ti?

A minha maior realização foi perceber que eu estava consumida pelo medo, e que o medo pode me levar quando eu perco o contacto com a realidade e isso foi uma grande realização para mim. Obsessão acho que significa qualquer coisa que faz uma mulher ficar obcecada, pode ser um homem, uma roupa, um sentimento, qualquer coisa que desencadeie uma obsessão e elas tanto podem ser boas quanto más. Sexo representa a minha forma de ser uma pessoa sexual, aborda essa minha dimensão, mas também significa o ser mulher física e mentalmente, e isso é muito importante para mim, deve ser celebrado. Por exemplo a música Queen, diz-me muito, aquela letra é muito importante para mim. E por fim, empoderamento, significa aprender todas estas lições e estar disposta e preparada para as executar no dia-a-dia, e avançar para o futuro o que, por si só, já é algo muito poderoso. R.O.S.E. é indiscutivelmente o meu álbum favorito. Who You Are também é um grande álbum para mim, mas em R.O.S.E. eu já me conhecia melhor, já tinha amadurecido mais, sinto que experiênciei, senti e vivi tudo aquilo que canto naquelas músicas. Estou mesmo orgulhosa dele, e nem acredito que já o lancei há um ano.

Vens ao EDP Cool Jazz, o que é que podemos esperar deste concerto?

Amor, música e banda ao vivo e eu a fazer piadas e a ser emocional. Eu nunca sei ao certo  o que eu vou fazer em palco, às vezes sou mais louco e brincalhona e outras vezes sou muito séria e triste, depende muito de como me sinto. Mas basicamente podem esperar todas aquelas músicas que os fãs não dispensam, no entanto eu altero a setlist na maioria das noites, então nunca sei bem o que vamos fazer até chegar ao dia e decidirmos.

Se pudesses, o que é que dizias à Jessica de 16 anos?

Passa mais tempo com as pessoas que amas e menos com as coisas que não importam.

E o futuro Jessie? Já pensas no próximo álbum ou nos próximos desafios?

Não sei, estou a tentar viver com cada vez menos expectativa e simplificar a minha mente, porque isto pode tornar-se obsessivo, eu quando decido que as coisas devem soar de certa forma ou acontecer de certa maneira fico obsessiva e quando elas não acontecem como eu calculei ou não soam ao que eu imaginei eu deixo-me ir a baixo, desanimo porque criei demasiadas expectativas e pus demasiada carga nos meus ombros. Por isso, agora, tento ser mais branda comigo, levo o meu tempo, o que tiver de ser, será. A música reflecte a vida, por isso é que tenho tentado simplificar a minha vida e focar-me no meu lado mais autêntico e nas minhas verdades. Não sei nada sobre o futuro, mas, na verdade, quem é que sabe??

E, por curiosidade e porque eu também amo cachorros quentes, quão bom era o cachorro-quente vegan que comeste ontem?

Honestamente eu não consigo parar de pensar sobre ele! Estou tentada a voltar lá para comprar mais dois. (risos) A culpa é de uma das minhas melhores amigas que me disse “Oh meu Deus, encontrei um supermercado vegan” e eu disse-lhe logo para irmos. Ora bem, eu comprei tudo. Comi oito tiras de mozarela vegan e depois o cachorro-quente. Foi intenso, foi muito intenso, mas foi bom!

Esta entrevista é da minha autoria e foi publicada na edição nº219 da revista Lux Woman (capa de julho de 2019)

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