A bordo de uma metáfora

Alerta Spoiler!
Ok, o filme não é excepcionalmente bom, saí um pouco desiludida com o desfecho da história, mas é bonito, tem muito sentido estético e um cenário incrível, parecia que estava num observatório espacial.

Imaginem o que é estarem desligados do tempo, sem poderem regressar ao passado ou avançar para o futuro. A bordo da Avelon só se vive o presente. Agora imaginem viver assim, sozinho, numa nave com cerca de 5.000 pessoas que vão estar a dormir por mais 90 anos. Tu até podias acordá-las mas irias condená-las apenas aquilo, uma nave e um presente sem futuro. Conseguias suportar a solidão ou arrastarias alguém para o teu mundo?
Pensa no que fazes no dia a dia, na realidade em que vives.

Para mim, a história deste filme não é uma história de ficção cientifica é uma metáfora para as relações. Aliás tudo gira à volta de duas, das quatro personagens que fazem parte do filme.

Imaginem-se acordados, despertos dentro de vocês mesmos, mas a sentirem-se sós, perdidos, sem poderem regressar ao passado e sem poderem alcançar o futuro. Sabem que há milhares de pessoas à vossa volta mas elas estão no seu casulo, tu achas que não as deves incomodar, achas que talvez consigas sobreviver apenas com a amizade de um empregado de bar que está lá para te servir e responder com “frases feitas” como qualquer empregado de bar. Mas um dia reparas numa pessoa, entre milhares, olhas para uma pessoa e queres que essa pessoa repare em ti, queres que essa pessoa conheça o teu mundo, queres que ponha um fim à tua solidão, mas para isso vais ter que a incomodar. Vais fingir que foi por acaso que se encontraram ali, ao pé da fonte, mas tu já sabes tudo sobre aquela pessoa, já ouviste a voz dela, já leste sobre ela, já conheces os seus sonhos, o seus desejos e o seu passado. Mas ela não sabe nada  sobre ti, ela acha que está ali por acaso. Um acaso que vos leva a sentarem-se num bar, não há muito mais a fazer. Conversam, conhecem-se, sorriem, apaixonam-se. Os outros milhares de pessoas deixam de importar, ela ainda tentou, nos primeiros dias resistir aquela fatalidade de te ter a ti e ao teu mundo para sempre, sem poder fugir. Fugir é morrer. Mas depois até ela desistiu de continuar à procura de outra pessoa, de outra saída. Ainda bem que sabes todos os seus segredos, ainda bem que a podes fazer feliz porque leste os seus desejos, ainda bem que já não dormes sozinho. Mas um dia, no ponto alto da relação, uma verdade destrói tudo. Ela descobre que nada foi por acaso, que tu lhe deste aquela prenda porque já sabias secretamente que ela adorava aquilo, já sabias o seu nome, já sonhavas com o cheiro do seu corpo, já desejavas aquela noite no bar só com ela, tu foste incomodá-la, foste buscá-la ao mundo dela onde os sonhos fluíam sem ti.
Que besta! Que direito é que tu tens em ir chatear alguém que está a sonhar? Arrancaste-lhe milhares de possibilidades, milhares de namorados, noites de sexo com estranhos, milhares de amigos, milhares de oportunidades diferentes. Durante aquele tempo, que parece infinito, não há hipótese de haver outra hipótese. Estão condenados um ao outro. Fugir é morrer. Que bom que é termos uma pessoa só para nós. Que sufoco é o dia em que acordamos a pensar em 5.000 cenários diferentes. Duvidamos se é mesmo com aquela pessoa que estamos dispostos a passar o resto da vida, uma eternidade, um presente, um futuro, sempre na companhia um do outro, mesmo que se afastem, nada será suficientemente largo para que deixem de se amar, o tempo não será generoso o suficiente para que o esquecimento apague o que sentem um pelo o outro. Fuck.

E aí pensas, “Que horror, o que seria da minha vida se nunca tivesse acordado aqui, o que seria se fosse outra pessoa a acordar-me, o que seria se estivéssemos todos acordados, seria eu capaz de reparar nele? Não é que falte amor, não é que ele não seja a última peça que me faltava para me sentir completa, é que podia ser tudo diferente se ele não tivesse provocado, em segredo, o meu acordar, o meu amanhecer, o meu despertar para aquilo que viria a ser a nossa história. Será que o infinito só faz mesmo sentido com esta pessoa? Serei capaz de saltar com ela? Será que é mesmo um ‘if you die, i die’.
Mas ele pode salvar-me a vida, quando o fim se aproxima podemos reunir esforços e salvar-mo-nos, ele vai querer arriscar a vida por mim e nesse momento eu sei que é um ‘if you die, i die’. Esqueço-me que estou condenada a ele e arrisco a minha vida para o salvar, faremos isto a vida toda, salva-mo-nos um ao outro, saltamos para um abismo sem medos nem receios porque, no meio de milhares de pessoas e possibilidades nunca exploradas a nossa vida só faz sentido com uma pessoa, aquela pessoa. E perante a possibilidade de um de nós poder voltar a adormecer com milhares de pessoas e acordar num futuro impossível de conhecer, preferimos ficar acordados um com o outro para o resto da vida.”

Fim.

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