#8 – Entre a flor e a primavera

Uma colina cheia de gente e eu com uma barriga cheia de hot dog, as always. Avancei pelo pórtico como se tivesse uma Alexa Chung dentro de mim e um daqueles blusões cheios de estilo da Levi’s por fora. Já tinhas desapertado o botão de cima da camisa em Cigarettes After Sex, estavas cheio de vontade de mandar os teus amigos darem uma volta para curtimos aquela merda sozinhos, mas nem com a dança do copo cheio tu ganhaste pica.

Quando encostei a cabeça na relva húmida só queria dar razão às Pega Monstro, que em dois mil e troca o passo cantavam “as gajas do Porto são todas mais giras do que eu” e ela era tão “uma beta gira da Foz”, tão bronzeada, tão enjoada. Mas ela era mesmo muito mais gira, e nem se sujava com o ketchup, mas também não comia kebabs e bananas às três da manhã, antes de entrar no Pitchfork para dançar até ser dia e depois ir de metro para casa, já montada nos óculos de sol para disfarçar o cansaço e a moleza.

Tenho a certeza que ela se revelou mais gelada que a tua cerveja quando Bon Iver entrou no palco e ela não sabia letra nenhuma, era mais uma à espera do encore, à espera que as tuas mãos fossem parar à anca dela no primeiro acorde, mas ela só soube cantar a “Skinny Love” e eu nas minhas skinny jeans rasgadas, estava de olhos fechados a absorver a melancolia. 
Nem conseguiste curtir Pond porque sabias que ela não era uma miúda divertida, era só uma miúda de calções, com um nome tão comprido quanto o cabelo e com apelidos a combinarem com os teus. E de que serve ter tantos floreados num festival?
És tão difícil de ter e é tão fácil cair na tentação de te querer. E com ou sem ketchup, estavas delicioso dentro daquelas 501 épicas! Mas tu não és o Alex Turner e eu não sou a miúda da 505. E mesmo com o meu sexto sentido a dizer-me que havia clima entre nós, tu não ficaste nem até à quarta música de Skepta; eu a partir chão e tu a partir para outra, quase que comecei a ouvir o Anel de Rubi do Rui Veloso na cabeça. E o pior foi não teres gostado daquele beijo lindo em Whitney, bem sei que não combina nada com a cruz ao peito. Mas afinal, que reza é vossa? Nem o Santo António abençoa tanta falta de sal. E eu temperada a cerveja deixei de querer saber. 
Mas tu quiseste saber da minha complexidade artística sem quereres admitir que amavas a minha simplicidade estética e enquanto carregaste com a bóia de cisne da miúda, tão plástica quanto ela, eu estava noutra barraca a comprar as t-shirts das nossas bandas favoritas. E vesti o que tu querias despir, e fui quem tu querias ter, e cheguei tarde a casa e com bolhas nos pés, e comi com as mãos e sentei-me no chão, muito embora aquela toalha em vichy amarelo fosse linda de morrer.

“As gajas do Porto são todas mais giras do que eu” mas não chegam mais cedo para verem bandas que não conhecem, não ficam na primeira fila de Elza Soares para lhe beijarem os pés, não bebem “litrosas” à porta, nem chegam mais cedo para ver bandas que não conhecem. E como eu não tinha um blusão da Levi’s com o meu nome e estava com umas 501 iguais às tuas, foi difícil encontrares-me em Metronomy, mas já devias saber que eu estava no meio do povo, bem lá à frente porque não perdi tempo a ir retocar a maquilhagem.
Quisesses tu saber do activismo feroz da Elza Soares, daquele que incomoda, e eu haveria de querer, cada vez mais, ter a tua roupa espalhada pelo chão do meu quarto. Mas a minha impaciência não me deixa com vontade de despir tanto preconceito. Quando vieres, vem nu por favor!

Agora, com as pernas doridas e acabada de chegar, o cabelo despenteado e a roupa suja, com um copo de vinho na mão e sentada no chão do meu quarto, não consigo deixar de pensar em ti e numa questão: Se perdesses a cabeça e as manias, ficavas com uma flor ou com a primavera inteira?

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