#4 – Nas escadas do Teatro

Estávamos sentados nas escadas do Teatro Nacional D. Maria II, era perto das sete da tarde, o frio do inverno entrava pelas rachas dos nossos casacos. Ele tirou uma das luvas para tirar um cigarro e acendeu-o. Perguntava-me sempre se queria um, apesar de saber que provavelmente eu iria dizer sempre que não.

Depois, com o fumo ainda travado na garganta, perguntou: – Achas que há pessoas que são realmente felizes? Totalmente felizes? Achas que as pessoas que passam aqui à nossa frente, nesta azafama de um dia de semana debaixo das luzes de natal, são mesmo felizes? Haverá alguém assim? 
Ri-me, era impossível não o fazer quando uma pergunta destas surgia num momento daqueles. Estávamos a discutir a possibilidade de irmos comer um Cheeseburguer ao McDonnald’s ou usar o mesmo dinheiro para tomar um chocolate quente no Starbucks. Mas eu nem sabia o que queria comer quanto mais o que lhe havia de responder. Ele pareceu-me muito sossegado apesar da minha resposta ainda não ter passado de um sorriso. Enquanto exalava o fumo olhou-me de lado e fez um gesto com a mão para me dizer que continuava à espera de resposta. 
Não sei se as outras pessoas são mesmo felizes. Acabou de passar uma senhora de rabo de cavalo e sorriso na cara, essa deve ser mais feliz que o taxista que está encostado ao carro ali ao lado. Sei que toda a gente passa por momentos de felicidade, caso contrário nunca saberiam verdadeiramente o que é tristeza ou infelicidade porque há coisas que só aprendemos por oposição. Por muito que te digam que o inverno é mais frio, se nasceste e viveste no Equador, não fazes ideia de quão frio é o inverno na Noruega. Mas eu sei que sou mesmo feliz, aprendi a diferença muito cedo, quando tive um dia triste mas, se pensasse de uma forma mais profunda, tinha a certeza que não estava infeliz. – Disse-lhe.
Estas a dizer-me que as pessoas tristes podem ser felizes? – perguntou ele, com o fumo a sair-lhe pela boca. 
Sim, se souberem ver que a felicidade é feita de alegrias e tristezas, tal e qual como o ano é feito de estações quentes e estações frias, tal como o dia é feito de dia e noite. Não há uma coisa sem a outra. Ou como o outro diz: Não se consegue ver as estrelas sem que haja a escuridão da noite. 
Ok, que bonito – disse-me ele enquanto franzia o sobrolho, julgando a quantidade de tretas que lhe estava a dizer. 
Pronto, é isto que me faz feliz! – disse-lhe, encostando-me ao degrau detrás.
Isto o quê, essa forma quase bíblica de encarares a felicidade? – Questionou com a cara franzida.
Não, rapaz, a indecisão. Não sei se quero um Cheeseburguer ou um CBO, o frio dá-me fome e estes degraus são de certeza menos confortáveis que os degraus do MET. 
Já acabei o cigarro, já podemos ir. – respondeu ele enquanto apagava o cigarro debaixo dos Vans e me estendia a mão para me levantar.
_____
Eram seis e meia da manhã quando o telemóvel começou a vibrar, a principio achei que já era o despertador, o que me deixaria absolutamente depressiva porque eu ainda queria dormir muito mais. Era o Elias, como era de madrugada achei que me estivesse a ligar bêbado. Atendi e antes de poder dizer “Ó meu cabrão, isto são horas para me estares a chatear?” ouvi-o do outro lado a dizer: eu percebi que tinhas razão sobre o que me disseste na semana passada. A felicidade não é uma plenitude nem uma soma constante de alegrias, é uma equação complexa onde tu arranjas sempre forma de que o resultado seja positivo, mesmo quando nem sequer sabes fazer a raiz quadrada de nove. 
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1 Comment

  1. Abril 28, 2018 / 8:10 pm

    Muito bom!!! Adorei a mensagem e a forma como chegou bem dentro de mim … Senti-me presente o tempo todo … Grata por este bocadinho Liliana!

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