#2 – Quando voltei de Princeton

Texto: Liliana Marques | Foto: D.R.

No ar sentia-se um cheiro a mofo cada vez mais húmido. A sala ia ficando cada vez mais cheia, à medida que as pessoas iam entrando, despiam os casacos de cabedal atando-os à cintura.
As luzes ainda estavam ligadas e conseguíamos ver a cara excitada de toda a gente, a maioria estava com um copo de cerveja na mão, certamente seria para matar a sede e apagar o fogo do calor do momento e da adolescência, quase a chegar ao fim.
Ao mesmo tempo que as luzes se apagaram  ouviu-se uma histeria de sons, era impossível não nos querermos soltar de tudo naquele momento. Com o palco ainda escuro, ouviu-se o primeiro acorde e a energia passou a estar mais descontrolada, quase como a, ainda tímida, voz do Alex.
As letras eram descritivas e às vezes sem sentido, mas tocavam-nos, descreviam-nos. Nos momentos mais suaves parávamos para respirar com o corpo todo transpirado e com sorrisos épicos de quem está deliciado pelo momento; perguntámos um ao outro se estávamos a gostar. Do concerto ou de estarmos ali naquele momento irrepetível e simultaneamente eterno?
Na última música ele colocou as mãos sobre a minha cintura, foi um acto de coragem, eu facilmente daria para trás, mas nem liguei e senti de perto a respiração dele, quente e rítmica, junto à minha orelha.
Os Arctic Monkeys ainda estavam em palco quando ele me beijou o pescoço e disse – “Foi Lindo”.

Eu tinha acabado de chegar da América, tinha passado as minhas férias em Princeton com a minha avó. Íamos frequentemente a Nova Iorque e a efervescência das ruas daquela cidade inspiravam-me. A minha avó era uma americana liberal que adorava ler e praticar ioga com um grupo de pessoas da idade dela.
Não foi difícil conseguir que ela me desse liberdade para passear sozinha  e ir a algumas festas, apesar da minha ingenuidade própria da idade tenra. Mas a verdade é que uma matiné na baixa da cidade com uns miúdos americanos desconhecidos e umas bebidas em copos vermelhos de plástico, sabiam-me a pouco.

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